Nada e absolutamente NADA justifica o tratamento dispensado
aos profissionais cubanos. Acredito que nem um profissional de bom senso seria
capaz de oferecer uma descortesia dessas que subleva o espírito humano a uma
firmeza moral muito questionável, até porque (no acerto total das contas), os
mesmos em nada tem culpa das trapalhadas e do desserviço que os governos
(federal, estadual e municipal) tem causado a este país quando se trata de
saúde.
O reboliço causado no Ceará parece um mimo de filhinho de
papai, educado em colégio particular, que nunca usou transporte público porque
tem o seu carro particular, com uma visão míope da realidade brasileira e que
provavelmente jamais tenha lido um parágrafo se quer de Euclides da Cunha,
Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre
Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Celso Furtado, Caio Prado, ou melhor, alguma coisa no nível da idade mental de uma criança de dois
anos (se soubesse expor suas opiniões é claro).
Evidente que isso é imediatamente extensivo a todos os
“médicos” que silenciosamente ou pateticamente esclerosados comungam desse
espírito de “porco” (coloco entre aspas porque o animal porco não merece a
referência, mesmo que conotativa) de ofender o próximo em qualquer escala ou
circunstância, seja no Ceará, em Brasília ou em qualquer outra capital. Essa
mesma violência não seríamos capazes de presenciar em cidades como São João do
Jaguaribe, Saboeiro, Antonina do Norte e Eusébio. Sabe por qual razão? Simples,
não há médicos nesses municípios pra protestarem.
Talvez o Brasil não precisasse importar médicos cubanos se os
médicos brasileiros formados em faculdades públicas antes de servirem aos seus
interesses privados servissem aos interesses públicos - remunerados é claro –
como uma espécie de estágio probatório ao desempenho de suas futuras
atividades, afinal não há nada de ético ter seus estudos custeados pelos
impostos públicos e depois virar as costas para quem os ajudou formar. Tal
estágio seria, evidentemente, em regiões em que a taxa per capita de profissionais fosse menor, como é o caso do Estado do
Amapá que tem 1 médico para 1.200 habitantes. E a demanda se daria da menor
relação para a maior.
Outro aspecto importante a ser ressaltado é que todo o
candidato que pleitea fazer um curso público de medicina no Brasil sabe
exatamente da realidade desastrosa que cerca o segmento e que o cenário, diferente
do teorizado, não tem nada de status para esse profissional a começar pelo
próprio funcionamento do curso. A escassez de recursos em todos os níveis é a
tônica do universo público e no interior do país é quase um cenário de guerra
que se vê em algumas cidades.
Por vezes chego a pensar na existência de uma vocação
equivocada e turbinada por uma imagem social distorcida e marcada por uma
embalagem marqueteira do profissional
que já começa sendo chamado de doutor mesmo antes de fazer doutorado, sendo que
a maioria não faz. Mas essa já é uma outra estória. Bom mesmo é se começássemos
com o básico, e por assim dizer, com os velhos ensinamentos dados em casa e que
toda boa educação pede: cortesia, atitude gentil, disciplina, respeito ao
próximo, transparência, atenção aos horários, etc. Independente do contexto
existem coisas que são imutáveis e que não são determinadas por dinheiro e
ambiente.
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