quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mais Médicos e menos “médicos”

Os gritos de “voltem pra senzala”, “incompetentes” e “escravos” emitidos em forma de protesto pelos “médicos” cearenses evidenciaram a mediocridade e a pobreza de caráter e ética que os mesmos deram como exemplo ao recepcionar os médicos cubanos. Acima de tudo demonstraram que as suas envergaduras morais estão no nível – 1 da escala da precariedade humana, provavelmente, como as das suas escolas de medicina devem estar também, pois se os mesmos são educados no caráter e na moral dessa forma imaginem a educação no campo da inteligência e dos conhecimentos gerais e técnicos.

Nada e absolutamente NADA justifica o tratamento dispensado aos profissionais cubanos. Acredito que nem um profissional de bom senso seria capaz de oferecer uma descortesia dessas que subleva o espírito humano a uma firmeza moral muito questionável, até porque (no acerto total das contas), os mesmos em nada tem culpa das trapalhadas e do desserviço que os governos (federal, estadual e municipal) tem causado a este país quando se trata de saúde.
O reboliço causado no Ceará parece um mimo de filhinho de papai, educado em colégio particular, que nunca usou transporte público porque tem o seu carro particular, com uma visão míope da realidade brasileira e que provavelmente jamais tenha lido um parágrafo se quer de Euclides da Cunha, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Celso Furtado, Caio Prado, ou melhor, alguma coisa no nível da idade mental de uma criança de dois anos (se soubesse expor suas opiniões é claro).

Evidente que isso é imediatamente extensivo a todos os “médicos” que silenciosamente ou pateticamente esclerosados comungam desse espírito de “porco” (coloco entre aspas porque o animal porco não merece a referência, mesmo que conotativa) de ofender o próximo em qualquer escala ou circunstância, seja no Ceará, em Brasília ou em qualquer outra capital. Essa mesma violência não seríamos capazes de presenciar em cidades como São João do Jaguaribe, Saboeiro, Antonina do Norte e Eusébio. Sabe por qual razão? Simples, não há médicos nesses municípios pra protestarem.
Talvez o Brasil não precisasse importar médicos cubanos se os médicos brasileiros formados em faculdades públicas antes de servirem aos seus interesses privados servissem aos interesses públicos - remunerados é claro – como uma espécie de estágio probatório ao desempenho de suas futuras atividades, afinal não há nada de ético ter seus estudos custeados pelos impostos públicos e depois virar as costas para quem os ajudou formar. Tal estágio seria, evidentemente, em regiões em que a taxa per capita de profissionais fosse menor, como é o caso do Estado do Amapá que tem 1 médico para 1.200 habitantes. E a demanda se daria da menor relação para a maior.

Outro aspecto importante a ser ressaltado é que todo o candidato que pleitea fazer um curso público de medicina no Brasil sabe exatamente da realidade desastrosa que cerca o segmento e que o cenário, diferente do teorizado, não tem nada de status para esse profissional a começar pelo próprio funcionamento do curso. A escassez de recursos em todos os níveis é a tônica do universo público e no interior do país é quase um cenário de guerra que se vê em algumas cidades.
Por vezes chego a pensar na existência de uma vocação equivocada e turbinada por uma imagem social distorcida e marcada por uma embalagem marqueteira do profissional que já começa sendo chamado de doutor mesmo antes de fazer doutorado, sendo que a maioria não faz. Mas essa já é uma outra estória. Bom mesmo é se começássemos com o básico, e por assim dizer, com os velhos ensinamentos dados em casa e que toda boa educação pede: cortesia, atitude gentil, disciplina, respeito ao próximo, transparência, atenção aos horários, etc. Independente do contexto existem coisas que são imutáveis e que não são determinadas por dinheiro e ambiente.

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