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O consumo
colaborativo, também conhecido como compartilhado, ganha corpo no Brasil com a
proposta de uma nova forma de consumir serviços e produtos, desde carros e
brinquedos até roupas. A modalidade permite consumir sem necessariamente
comprar. Este formato alia economia, consciência sustentável e estimula a
criação de redes de interação social que facilitam o acesso a objetos para
empréstimo ou aluguel. É possível encontrar serviços como aluguel compartilhado
de carro, mensalidade de brinquedos rotativos, bicicletas comunitárias,
sites de empréstimo gratuito e aluguel de objetos. Ao mesmo tempo, surgem as
feiras de troca de roupas que ganham ares sofisticados, conquistando
principalmente mulheres das classes altas e resgatando na era tecnológica os
tempos do escambo.
A tendência pode parecer contraditória, uma vez que
divide espaço com o crescimento econômico nacional que veio acompanhado de
políticas de estímulo ao consumo, aumento de crédito e consequente
aquecimento do varejo. Mas, na realidade, os dois modelos coexistem
dentro da sociedade contemporânea. Em outros países, o consumo
colaborativo já passou por um processo de amadurecimento. Na Europa e no mercado
norte americano, esta modalidade cresce alimentada pelo ambiente de crise
financeira, o que obriga a sociedade a andar na contra mão dos gastos
impulsivos.
Isso se reflete também em um movimento global voltado para o
consumo consciente. “Acredito que este seja o caminho para o futuro. Cada
vez mais as pessoas vão sofisticar suas escolhas de consumo. Simplesmente
não faz mais sentido acumular, basta olhar para os Estados Unidos: uma população
endividada, mas que continua guardando coisas que provavelmente nunca mais vai
utilizar. A causa disso são as compras impulsivas. A pessoa adquire uma máquina
de pão, usa uma vez e volta a comprar na padaria, enquanto o aparelho fica
esquecido”, comenta Rogério Gomes, Idealizador do evento de troca de roupas
Desapegue, em entrevista ao Mundo do Marketing.
O mercado da moda
e a troca de roupas O vestuário está na lista de itens mais representativos
do consumo do brasileiro. A expectativa de gastos no varejo de
moda é de R$ 129 bilhões, com crescimento de 18% em relação a 2012, de acordo
com um estudo do Pyxis consumo, ferramenta de dimensionamento de mercado
do IBOPE Inteligência. Cada brasileiro deve gastar em média R$ 786,00 em
roupas e o maior poder de consumo está nas mãos da classe média,
somando R$ 52 bilhões.
Mesmo neste cenário, as feiras de troca de roupas
começam a conquistar visibilidade se apropriando de características dos brechós
e somando entretenimento, conceitos de moda, sem ser retrô. Nestes eventos, o
poder de compra do consumidor é medido pela quantidade de peças que cada
participante leva para contribuir com as trocas e não pelo quanto de dinheiro
que ele tem a disposição para a compra. Os valores são medidos pela qualidade
das roupas. Dinheiro, peças antiquadas ou desgastadas estão fora da
negociação.
Em São Paulo, o modelo se tornou realidade com o projeto
Desapegue que acontece mensalmente em um bar da capital paulista. Na ocasião,
além de renovar o guarda-roupas, as clientes comem e bebem com as amigas e
também participam de palestras sobre temas variados e consultorias de moda sobre
as tendências do mercado. “Logo na entrada, as peças são avaliadas e
selecionadas e as visitantes recebem créditos em botões para serem utilizados na
escolha de novas roupas. Temos pessoas na faixa de 20 anos ingressando na vida
profissional que vêm trocar roupas casuais por terninhos. Enquanto senhoras
fazem o caminho inverso. Mulher ama novidade e outro incentivo é a possibilidade
de ter peças novas sem gastar”, diz Rogério Gomes, em entrevista ao
portal.
IPI reduzido X mobilidade compartilhada Outro setor que
teve suas vendas aquecidas foi o de automóveis que nos últimos anos experimentou
facilitações como a redução do IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados) desta categoria, o que atraiu novos clientes. Mesmo assim,
adquirir um carro isoladamente não resolve os problemas de transporte. As
grandes cidades enfrentam questões como congestionamentos, poluição e
dificuldades para estacionar, além dos gastos periódicos que um veículo próprio
impõe entre impostos, manutenção e combustível. Para preencher essas
lacunas, propostas como trocar o automóvel por bicicletas ou alugar um veículo
de forma compartilhada vêm somando adeptos, seja por economia, praticidade ou
ideologia.
No Rio de Janeiro, uma parceria entre a prefeitura e o Banco
Itaú disponibiliza bicicletas em estações espalhadas por pontos públicos
da cidade, como praças e a orla. Para utilizar o serviço, é necessário realizar
um cadastro na internet e pagar uma taxa mensal. As bicicletas podem ser de
retiradas em qualquer estação por meio da liberação via smartphone. Os
passes custam R$ 10,00 para uso mensal ou R$ 5,00 para diária. Em São Paulo, a
opção de mobilidade colaborativa é o aluguel compartilhado de carros. A empresa
Zazcar atua desde 2009, contando com 60 veículos e mais de 2.000 pessoas
cadastradas. A empresa oferece planos com adesão a partir de R$ 25,00 e R$ 0,71
por quilômetro rodado. O cliente tem direito ao combustível sem custo adicional
e desconto de 30% em estacionamentos de redes parceiras.
A iniciativa
veio do empresário Felipe Barroso, que administrava uma empresa de terceirização
de frotas no Paraná e pretendia diversificar seu negócio. “Conheci o sistema de
carsharing em uma viagem ao exterior e, levando em conta a realidade do trânsito
de SP, tive certeza que o sistema de compartilhamento poderia ser muito útil por
aqui também. É importante frisar que, aliado aos transportes públicos, o sistema
de compartilhamento de carros é hoje uma das principais soluções de mobilidade
dos grandes centros urbanos, não apenas para combater o trânsito, mas também na
redução de emissões de gases nocivos”, comenta Felipe Barroso, CEO da Zazcar, em
entrevista ao Mundo do Marketing.
Condomínio colaborativo A
construtora Tecnisa passou a incluir em seus empreendimentos residenciais
soluções de consumo compartilhado que vão desde alternativas de
mobilidade e lazer até plataforma de trocas digitais. Com isso, a empresa
pretende trazer para as áreas comuns dos condomínios um mix de serviços úteis a
moradores e visitantes. Além das áreas tradicionais como brinquedoteca,
churrasqueira e fitness, a empresa propõe espaços como o carsharing, uma
vaga comum a todos para manutenção e limpeza do veículo e testa atualmente um
modelo de compartilhamento de carros. O sistema disponibiliza um veículo para
cada prédio, que poderá ser utilizado até três horas por dia pelos moradores que
se cadastrarem no projeto.
Outra medida presente nos empreedimentos é o
bikesharing, que seguindo o exemplo das bicicletas patrocinadas pelo banco
Itaú, disponibiliza os equipamentos para moradores e seus convidados. “A
proposta das bicicletas comunitárias vem para socializar o hábito de pedalar. Se
chega uma visita, o morador pode propor um passeio sem que o convidado precise
trazer a sua bicicleta de casa. Além disso, estimula o uso de um veículo que não
produz poluição no dia a dia. Queremos que a bicicleta venha para as áreas
comuns mais nobres do prédio, ganhando inclusive um espaço de pit-stop com
equipamentos de manutenção que podem ser utilizados por todos”, diz Gisele de
Luca, Gerente de Projetos da Tecnisa, em entrevista ao Mundo do
Marketing.
A construtora expande ainda seus projetos de
consumo colaborativo para os não clientes com uma plataforma de trocas de
objetos no Facebook. “Qualquer pessoa que desejar pode entrar na fanpage
da Tecnisa e baixar o aplicativo de trocas. Após fazer o download, ela
cria grupos entre os seus amigos para promover trocas e empréstimos”, conta
Marcelo Trevisani, Especialista de E-business e social media da Tecnisa,
em entrevista ao Portal.
Brincadeira compartilhada O público infantil
é outro alvo do consumo colaborativo e a empresa Joanninha investe neste
conceito com a locação rotativa de brinquedos entre associados. O projeto
nasceu da parceria entre duas publicitárias, Alessandra Piu e Anna Fauaz, que
pretendiam com seu projeto aliar pedagogia ao conceito de consumo
colaborativo. Por meio de uma mensalidade, que varia de R$ 80,00 a R$ 150,00 de
acordo com o plano escolhido, o cliente recebe brinquedos de um catálogo
virtual que permanecem em seu poder por um mês.
O sistema incentiva o
compartilhamento de objetos entre as crianças, além de permitir de forma mais
barata o acesso a diferentes tipos de brinquedos mês a mês. A marca
pretende promover a colaboração entre os clientes por meio de um diário que
acompanha cada entrega, onde são registradas as experiências com o objeto e
dicas de brincadeiras.
A ideia é que a criança possa ter a brincadeira
sem necessariamente possuir o item. “Trabalhamos a noção do coletivo e do
dividir desde a infância. Além disso, é muito mais interessante economicamente,
porque muitas vezes a criança enjoa daquilo que ganha, antes mesmo dos pais
terminarem de pagar”, diz Alessandra Piu, Sócia da Joanninha, em entrevista ao
Mundo do Marketing.
Rede de empréstimos de objetos Ainda na
internet, outro site nasceu focado no consumo colaborativo, o Descolai
propõe a volta da prática de tomar e pedir emprestado. Com a vida agitada, o
distanciamento interpessoal e a facilidade de comprar produtos em diferentes
canais, o hábito de emprestar fica cada vez mais esquecido. O portal traz essa
cultura para a era digital permitindo que os internautas criem cadastros com
itens que possuem e se dispõem a emprestar.
O inverso também é possível:
as pessoas podem informar os produtos os quais desejam receber emprestado. Todas
as ofertas e pedidos ficam visíveis aos usuários do site e também aparecem nas
buscas específicas. A plataforma pretende devolver a utilidade a produtos
esquecidos no fundo do armário, além de evitar compras supérfluas de itens que
seriam utilizados apenas uma vez. No site, o internauta encontra três módulos
diferentes: serviços, onde pode anunciar ou buscar algum profissional; trocas,
que permite o empréstimo de itens sem custos financeiros; e vendas que permite
aos usuários exporem objetos usados e semi-novos para
negociação.
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