quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pão, circo e violência


Por GAUDÊNCIO TORQUATO - O Estado de S.Paulo
Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d.C., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum (Coliseu), que lhe daria "muitas alegrias e infinita memória". Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar-se nas arquibancadas deste. O conselho fundamentava-se na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso anfiteatro, no centro de Roma, com cem dias de festa. Descortinava-se ali a era do panis et circensis, que consistia em proporcionar, naquela arena, espetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão. Implicava alto custo para os cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos.

É sabido que os jogos, ao longo da História, funcionaram como verniz para lustrar a imagem de governantes. Hoje a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua a receber atenção de administradores públicos de todos os quadrantes. Não por acaso, nossas arenas esportivas, que se preparam para abrigar os jogos da Copa de 2014, deverão colorir o portfólio de feitos do governo.
O que tem mudado na paisagem dos espaços lúdicos não é a ambição dos condutores dos Estados de se alçarem aos píncaros da fama, mas o comportamento das plateias. Espectadores que outrora fruíam a catarse dos embates esportivos, exaltando ou deplorando o desempenho de contendores, tornam-se eles próprios competidores, lutadores, gladiadores, disparando uns contra outros não só a arma das imprecações, mas armas de fogo, e partindo para a violência física. A alteração comportamental de quem vai aos estádios é preocupante, principalmente em nosso território, que elege o futebol como esporte nacional e se depara, a cada campeonato, com os novos sujeitos, as chamadas torcidas organizadas. O fenômeno toma vulto ante o risco de o Brasil vir a ser, por excelência, o palco da violência futebolística, pela constatação de que o aparato da segurança pública tem sido ineficaz para debelar a desordem e a pancadaria nas arquibancadas, a par de medidas paliativas, como cerceamento do acesso de torcedores a estádios, majoração do preço de ingressos, jogos com portões fechados, perda de mando de campo e multas aos clubes.

De pouco adiantará administrar tensões e conflitos sob o escudo policial-repressivo. Como se diz no vulgo, o buraco é mais profundo e está embaixo. A mobilização de pessoas para a formação de grupos e a organização de torcidas obedecem a nova ordem que impregna a dinâmica social no mundo contemporâneo. A competição assume posição singular em todos os setores, espaços, categorias profissionais e classes sociais. As massas fragmentam-se em núcleos, cada qual com seus discursos, bandeiras, uniformes, armas e instrumentos. Os avanços civilizatórios nos campos da macroeconomia, da política e da cultura abrem comportamentos diferentes, multiplicando as pequenas organizações sociais e gerando novos polos de poder.

Os espaços urbanos ganham novos contornos, a esfera do trabalho traz novos desafios e a busca de uma identidade passa a ser central para os indivíduos, principalmente os jovens, motivados a expressar valores como masculinidade, coragem, companheirismo, coesão, solidariedade, sentimento de pertencer a um grupo. Fazer parte de torcidas como Mancha Verde, Gaviões da Fiel, Independente passou a ser referência para habitantes de cidades congestionadas, carentes de serviços e lazer.

Ao escopo semântico - em que se agrupam as agruras sociais - adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores (verde, vermelho e preto, preto e branco, azul, amarelo canarinho), pelos símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), pela vestimenta com os dizeres da moda, pelo estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos. E fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores poderão ver nas telas da TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra.

Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão. O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos. Não se trata de promover meras ações de marketing cultural - eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube -, mas um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e da disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas.

É evidente que ante a moldura de extrema competitividade e crescente agressividade entre grupamentos sociais um esforço nessa direção não será tarefa fácil. O que aqui se propõe é uma ação cívica dos clubes de futebol na tentativa de ajudar o Estado brasileiro a melhorar a argamassa do edifício da cidadania. É inimaginável que torcidas se vejam como inimigas tomadas de ódio e virulência; e que o "sarro" tirado por um bandeirinha na direção de um grupo nas arquibancadas, o apito errado de um juiz, um ato menos educado de um policial ou um xingamento de torcedor sejam motivo para pancadaria.

Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico panis et circensis seria acrescido de violentia. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.

 

sábado, 7 de dezembro de 2013

Why We Make Bad Decisions - por que tomamos decisões ruins

By NOREENA HERTZ
Fonte: The New York Times

LONDON — SIX years ago I was struck down with a mystery illness. My weight dropped by 30 pounds in three months. I experienced searing stomach pain, felt utterly exhausted and no matter how much I ate, I couldn’t gain an ounce.
I went from slim to thin to emaciated. The pain got worse, a white heat in my belly that made me double up unexpectedly in public and in private. Delivering on my academic and professional commitments became increasingly challenging.
It was terrifying. I did not know whether I had an illness that would kill me or stay with me for the rest of my life or whether what was wrong with me was something that could be cured if I could just find out what on earth it was.
Trying to find the answer, I saw doctors in London, New York, Minnesota and Chicago.
I was offered a vast range of potential diagnoses. Cancer was quickly and thankfully ruled out. But many other possibilities remained on the table, from autoimmune diseases to rare viruses to spinal conditions to debilitating neural illnesses.
Treatments suggested ranged from a five-hour, high-risk surgery to remove a portion of my stomach, to lumbar spine injections to numb nerve paths, to a prescription of antidepressants.
Faced with all these confusing and conflicting opinions, I had to work out which expert to trust, whom to believe and whose advice to follow. As an economist specializing in the global economy, international trade and debt, I have spent most of my career helping others make big decisions — prime ministers, presidents and chief executives — and so I’m all too aware of the risks and dangers of poor choices in the public as well as the private sphere. But up until then I hadn’t thought much about the process of decision making. So in between M.R.I.’s, CT scans and spinal taps, I dove into the academic literature on decision making. Not just in my field but also in neuroscience, psychology, sociology, information science, political science and history.
What did I learn?
Physicians do get things wrong, remarkably often. Studies have shown that up to one in five patients are misdiagnosed. In the United States and Canada it is estimated that 50,000 hospital deaths each year could have been prevented if the real cause of illness had been correctly identified.
Yet people are loath to challenge experts. In a 2009 experiment carried out at Emory University, a group of adults was asked to make a decision while contemplating an expert’s claims, in this case, a financial expert. A functional M.R.I. scanner gauged their brain activity as they did so. The results were extraordinary: when confronted with the expert, it was as if the independent decision-making parts of many subjects’ brains pretty much switched off. They simply ceded their power to decide to the expert.
If we are to control our own destinies, we have to switch our brains back on and come to our medical consultations with plenty of research done, able to use the relevant jargon. If we can’t do this ourselves we need to identify someone in our social or family network who can do so on our behalf.
Anxiety, stress and fear — emotions that are part and parcel of serious illness — can distort our choices. Stress makes us prone to tunnel vision, less likely to take in the information we need. Anxiety makes us more risk-averse than we would be regularly and more deferential.
We need to know how we are feeling. Mindfully acknowledging our feelings serves as an “emotional thermostat” that recalibrates our decision making. It’s not that we can’t be anxious, it’s that we need to acknowledge to ourselves that we are.
It is also crucial to ask probing questions not only of the experts but of ourselves. This is because we bring into our decision-making process flaws and errors of our own. All of us show bias when it comes to what information we take in. We typically focus on anything that agrees with the outcome we want.
We need to be aware of our natural born optimism, for that harms good decision making, too. The neuroscientist Tali Sharot conducted a study in which she asked volunteers what they believed the chances were of various unpleasant events’ occurring — events like being robbed or developing Parkinson’s disease. She then told them what the real chances of such an event happening actually were. What she discovered was fascinating. When the volunteers were given information that was better than they hoped or expected — say, for example, that the risk of complications in surgery was only 10 percent when they thought it was 30 percent — they adjusted closer to the new risk percentages presented. But if it was worse, they tended to ignore this new information.
This could explain why smokers often persist with smoking despite the overwhelming evidence that it’s bad for them. If their unconscious belief is that they won’t get lung cancer, for every warning from an antismoking campaigner, their brain is giving a lot more weight to that story of the 99-year-old lady who smokes 50 cigarettes a day but is still going strong.
We need to acknowledge our tendency to incorrectly process challenging news and actively push ourselves to hear the bad as well as the good. It felt great when I stumbled across information that implied I didn’t need any serious treatment at all. When we find data that supports our hopes we appear to get a dopamine rush similar to the one we get if we eat chocolate, have sex or fall in love. But it’s often information that challenges our existing opinions or wishful desires that yields the greatest insights. I was lucky that my boyfriend alerted me to my most dopamine-drugged moments. The dangerous allure of the information we want to hear is something we need to be more vigilant about, in the medical consulting room and beyond.
My own health story had a happy ending. I was finally given a diagnosis of a rare lymphatic vessel condition, and decided that surgery made sense. Not the five-hour surgical intervention that would have left me in bed recovering for more than three months, but a much less intrusive keyhole surgery with a quick recovery. I chose a surgeon who wasn’t overly confident. I’d learned in my research that the super-confident, doctor-as-god types did not always perform well. One study of radiologists, for example, reveals that those who perform poorly on diagnostic tests are also those most confident in their diagnostic prowess.
My surgery went well. The pain subsided, the pounds gradually came back on. I am now cured.
With brain switched on and eyes wide open, we can’t always guarantee a positive outcome when it comes to a medical decision, but we can at least stack the odds in our favor.
 

Não chore pelo leite derramado

“São as más experiências e as perdas, quando admitidas plenamente e saboreadas em seu gosto amargo, que nos ensinam a viver. Elas nos tornam mais humanos, falíveis, flexíveis. É desse ponto frágil que podemos experimentar a compaixão por outros seres que perdem, e que sofrem as dores do esgarçamento da alma por isso. Conhecemos o gosto de sua aflição e podemos ser solidários com conhecimento de causa. O ganho dessa fraternidade em humanidade, dessa possibilidade de compaixão pelo outro com base em nossa própria experiência, já seria suficiente para absolver muitos de nossos erros e incompreensões do passado.”

Fonte: Revista Vida Simples

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Homo Sedens - o pensamento sentado

Por: Márcia Tiburi

"Somos, por fim, vítimas do que Baitello apontou como uma “conjunção perversa”, em que o sedentarismo de nossos corpos alia-se à hiperatividade visual. Anestesiados diante das máquinas, vivemos na direção contrária de nossa própria capacidade nômade."

Tratar o ato de sentar como uma questão culturalmente relevante pode soar como mera brincadeira. Quem, começando a levá-la a sério, se perguntar “quanto tempo de nossas vidas passamos sentados?” ou “quantas cadeiras há no mundo?”, por mais que consiga respostas estatisticamente impressionantes, não terá, contudo, atingido o cerne da questão inusitada que nos faz pensar nas formas assumidas pelo sedentarismo como caráter da cultura. Na contramão do nomadismo, o sedentarismo faz parte da história de nossa civilização. Mais do que parte da história, é uma postura que caracteriza nosso tempo presente. A maior parte de nossos gestos corporais acaba no assento; passamos muitas horas do dia sentados, tudo, em nossas vidas, convida-nos a sentar. Mas esse convite agradável ao descanso tem significados mais complexos: sentamos em casa, na rua, nas escolas, sentamo-nos diante de máquinas; sobretudo, hoje em dia, sentamo-nos diante de telas.
Norval Baitello Junior, professor da PUC de São Paulo, escreveu, em seu livro O pensamento sentado (Unisinos, 2012), sobre o lugar do “assento” em uma cultura sedentária. Sua crítica vai na direção de um pensamento sentado que, para ele, seria o pensamento acomodado. Recuperando a expressão alemã usada por Nietzsche para falar da “vida sedentária” – Sitzfleisch – ele explora a tradução por “carne de assento” que, literalmente, leva à usual “bunda”. Bunda tem um vasto alcance no Brasil. Mesmo que soe deselegante, não seria um erro considerar a atualidade de um “pensamento-bunda”, aquele pensamento cansado que, no extremo, expressa o que entendemos no cotidiano, no âmbito da irresponsabilidade do “bundão”.
O caráter “assentado” é o da “discursividade previsível e acomodada”, a que reduz o ato de pensar em nossa época, contra sua natureza mais íntima. O “decréscimo da mobilidade” do corpo é, segundo ele, também do pensar, cuja imprevisibilidade e capacidade de surpreender estariam em baixa. Conhecemos essa acomodação, sabemos que ela é necessária ao poder, ao sistema econômico e político, que esperam corpos dóceis e mentes paradas, repetindo acomodadamente mais do mesmo que mantém tudo no mesmo lugar: sentado.
Pensar na reflexão aos saltos do livro de Baitello é uma atitude dinâmica, como seria o movimento de nosso corpo, inquieto e propenso a caminhar, pular, correr e saltar. A capacidade humana, que está ligada a todo o nosso processo de aprendizagem em relação à vida, de explorar o entorno, é diminuída quando tudo se reduz a “assento”. O primata que somos se ressente de não poder mover-se.
Regra da cultura
Baitello nos lembra que sentar e sedar têm a mesma origem etimológica: sedere. Assim, comentando que somos “Homo sedens”, a atrofia dos músculos e dos movimentos surge como uma espécie de regra da cultura. Quando observamos o nosso dia a dia, sentados por todos os lados, diante de computadores, da televisão, dentro de carros, temos certeza que a mobilidade corporal que nos caracterizaria, e que ainda se coloca como nossa potência, cede lugar à estranha mobilidade incorporal da máquina. As máquinas se movem em nosso lugar, tornamo-nos imóveis: esperamos sentados a máquina que nos substitui. De certo modo, participamos passivamente de um “devir” imóvel, que não nos leva a lugar nenhum, senão àquele onde já fomos previamente postos.
Por fim, forçados a sentar, vivendo o elogio da disciplina, resistimos enquanto seres sentados em nome de um esforço. Valorizamos aquele que consegue aguentar a sala de aula, a cadeira no trabalho burocrático.
Somos, por fim, vítimas do que Baitello apontou como uma “conjunção perversa”, em que o sedentarismo de nossos corpos alia-se à hiperatividade visual. Anestesiados diante das máquinas, vivemos na direção contrária de nossa própria capacidade nômade.
Talvez fugir desse mundo seja um desejo soterrado por cadeiras numa avalanche mole ao qual nosso corpo se adequa por ter medo de seus próprias potências. Bom lembrar que fugir é sempre um direito.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Rule-Breaking Teens Make More Successful Entrepreneurs

Por Jeremy Dean
PsyBlog: www.spring.org.uk
ago 2013

According to a new study, successful entrepreneurs are three times more likely to have engaged in illicit activities as teens like shoplifting, skipping out of school and even drug-dealing.

The insight comes from a nationally representative sample of 12,686 Americans who have been followed for other 30 years, since they were teenagers (Levine & Rubinstein, 2013).

They looked at what types of cognitive and other factors were associated with becoming a successful entrepreneur—especially one that had incorporated their business.

Naturally they found that successful entrepreneurs have to be smart, have high self-esteem and be well-educated; but they also need the attraction to risk.

Those who turned out to be the best entrepreneurs often had a history of being rule breakers in their teenage years. They were more likely to have smoked marijuana, to have bunked off school and even to have assaulted others.

But this illicit aspect was also coupled with a very stable family background. Successful entrepreneur’s were disproportionately likely to come from families that were: high-income, well-educated, and stable. So we’re not exactly talking about disadvantaged youths here.

We’re also not talking about women here: since men, on average, are more aggressive and are prepared to take on higher risks, they are more likely to become entrepreneurs. Women made up just 28% of the entrepreneurs who had incorporated their business.

Does more risk mean more reward? But does this extra risk pay off?

This study found that in a financial sense, the risk may well pay off. Successful entrepreneurs earned 41% more per hour than similar salaried workers, although they also worked longer hours (on average, 27% more).

The study doesn’t, however, tell us anything about the effects of being an entrepreneur on family life or on psychological health. Perhaps these may not be as favourable as the economic benefits.

In a similar vein, the taste for risk-taking plus high self-esteem can provide a dangerous mix which can easily lead to lapses in judgement. Because of this, entrepreneurs are likely to need someone more risk-averse around who can rein them in when they go too far.


http://www.psiconomia.com.br/2013/12/jovens-que-desrespeitam-regras-tem.html#more

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Transposição de conceitos

O setor privado vive em constantes mudanças e inovações gerenciais de toda ordem. Novos conceitos e tecnologias de gestão são produzidos visando atender e satisfazer as necessidades do cliente. Vive-se uma espécie de ciclo virtuoso de identificação de problemas e geração de soluções. A administração pública por sua vez, nas últimas décadas, têm se voltado para o campo da administração privada ne busca de soluções para problemas semelhantes. A introdução do Balanced Scorecard é um exemplo disso, inclusive esse é o instrumento escolhido pela UFPA como modelo de gestão para tocar o seu PES – Planejamento Estratégico Operacional de 2011 a 2105.

A questão é: até que ponto esses dois universos (privado e público) possuem semelhanças que justifiquem a transposição de conceitos e tecnologias de gestão do primeiro para o segundo? Em que medida podemos aplicar diretamente esses conceitos? Não estou dizendo que a iniciativa privada não possa oferecer instrumentos para a administração pública, nem afirmo que as soluções concebidas em um não oferte a outro possibilidades de renovação. Ao contrário, já se sabe largamente que diversas ferramentas são usadas e com grau positivo de eficiência. O que não se pode esquecer é que há diferenças substantivas entre eles. As finalidades são distintas, os recursos possuem diferentes níveis de escassez e as necessidades de atendimento do bem ou do serviço ao usuário final também possui suas diferenças.

O setor público possui seus sistemas de gestão próprios e erigidos a partir de uma construção histórica baseada em suas culturas e práticas que, bom ou ruim, vem evoluindo quanto ao atendimento das necessidades da sociedade. Muitas falhas existem, sem dúvida, porém há de se pensar que a reprodução direta de sistemas exógenos gerará desde apropriações formalísticas ou de “faz de contas” até verdadeiros traumas. A transposição de conceitos, recombinação criativa ou adaptação criativa, ou seja lá qualquer designação que se queira atribuir é obrigatório o cuidado de não cair no que se chama de “redução gerencial” de Bergue, 2008, cuja a saída menos complexa seria a construção de soluções endogenamente orientadas.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tratado a virtude da simplicidade

A simplicidade é o tempero de todas as virtudes. Simples não é o oposto do complexo: é o oposto do falso. Ser simples de verdade é levar em conta a natureza complexa das coisas, mas sem multiplicar complicações desnecessárias. A complexidade da simplicidade pode ser confundida com o simplismo que nada tem de virtuoso, ou pior, quando usada como adorno, como uma pose, a simplicidade pode virar apenas uma forma de ascetismo vaidoso.

Ser simples é aceitar, por exemplo, a dúvida eterna. É manter a independência de pensamento sem acreditar em doutrinas. É saber que todas as sociedades por mais desenvolvidas que sejam possuem suas convenções. A simplicidade não é apenas uma virtude moral, mas também uma virtude intelectual. A mente simples aceita a complexidade do mundo, porém não deixa se enganar pelas tentações da complicação gratuita.

A inteligência é a capacidade de tornar simples as coisas complexas já dizia André Comte-Sponville em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Certa vez Michel Foucault, que já andou por Belém em visita a UFPA, confessou: Na França de hoje, você precisa falar e escrever de forma incompreensível; pelo menos 10% do que você diz deve ser obscuro. Do contrário, as pessoas vão achar que você não é um pensador profundo, deixando claro um certo culto da obscuridade. Goethe: Tudo é muito mais simples do que se pode imaginar e muito mais intricado do que se pode conceber.

Pensamentos adaptados de Hermanm Hesse

Num mundo cada vez mais despersonalizado, onde os valores humanos e mentais são devorados pela necessidade de satisfação do ego, preocupado mais em aparentar do que realmente entender, as pessoas já não mais são reconhecidas pelo que pensam ou são, mas sim por aquilo que fingem exteriormente, criando uma espécie de superficialidade emocional, condicionada gradativamente por sistemas de relações virtuais. Sobreviver a uma existência mecânica e despersonalizada sem aprofundar-se nos precipícios das inexploradas percepções mentais, parece soar como uma derrota ante às perspectivas da vida. É necessário uma conexão maior entre a mente e o universo, ou seja, uma consciência cósmica.

Pensamentos adaptados de Hermanm Hesse