Imagine-se na pele de um hominídeo há 1,5 milhão de anos caminhando na savana africana à procura de alimento para seu grupo. Estando prestes a emboscar um pequeno animal, você percebe no canto do seu campo de visão um movimento. Sua memória rapidamente identifica o risco de que um predador possa estar prestes a transformá-lo de caçador em caça.
Você tem duas alternativas: 1) ignorar o que parece ser um leão preparando-se para atacá-lo, assumindo o risco de seguir para pegar o alimento (alternativa arriscada) ou 2) ser o mais precavido possível e subir em uma árvore até ter certeza de que não está prestes a virar almoço, deixando de lado a caça (alternativa conservadora).
Diante de situação semelhante, a esmagadora maioria dos animais, incluindo aí primatas e humanos, opta instintivamente pela segunda alternativa. Ou seja, diante de um cenário que envolve a possibilidade de um ganho interessante e elevado (alimentar seu grupo por dias) ou preservar a própria existência, optando pela fuga em busca de proteção em uma árvore alta, a reação instintiva é pelo conservadorismo. Se no instante seguinte o que aparentava ser um predador não passar de um tufo de palha, ainda que a oportunidade de obter o alimento tenha passado, ao menos a própria vida terá sido preservada.
Predadores não são o único risco que nossos ancestrais aprenderam a temer. Ficar sem água, procurar abrigo seguro, conseguir uma fonte de alimento estável; tudo isso era, e de certa forma ainda é, uma questão de vida ou morte e nos deu uma aversão inata ao risco e à incerteza. Do ponto de vista evolutivo, a sensibilidade às perdas provou-se benéfica, já que os que optaram pelo conservadorismo tiveram maior probabilidade de sobreviver.
Experimentos semelhantes ao descrito acima são reproduzidos em laboratórios de zoologia ao redor do mundo e, invariavelmente, apontam a escolha de alternativas conservadoras e pouco arriscadas como as mais frequentes em diferentes espécies. Em um desses experimentos, a pesquisadora Leslie Real colocou abelhas em um recinto com canteiros contendo flores agrupadas, em duas cores. As azuis continham sempre 2 ml de néctar. Já as amarelas continham três vezes mais néctar por flor, porém apenas uma em cada três flores amarelas continha essa enorme quantidade de néctar. Após pouco tempo, 100% das abelhas aprenderam a optar pela alternativa mais conservadora, ou seja, passaram a permanecer todo o tempo nas flores azuis, mais seguras e previsíveis. O mesmo padrão foi observado em pássaros e diferentes espécies de macacos, primatas e até humanos.
Esses estudos sugerem que correr risco quando alternativas mais prudentes encontram-se disponíveis não é algo instintivo. Fatores e cenários que envolvem risco são processados em nosso cérebro por uma região chamada Amygdala. Ela entra em ação sempre que percebemos uma ameaça e, em grande medida, neutraliza a ação de outras partes mais racionais do cérebro. Privilegia-se assim a tomada de decisões prudentes que favoreçam a sobrevivência e a previsibilidade, ainda que abrindo mão de recompensas potencialmente maiores.
Dessa forma, não é de se espantar que exista hoje, não só no Brasil, mas no mundo, um volume quase cem vezes maior de recursos investidos em ativos de renda fixa, com retornos mais baixos e previsíveis, do que em renda variável, ainda que esses sejam mais rentáveis num horizonte de tempo maior.
Como deve, então, o investidor lidar com essas limitações para não privar seu portfólio de alternativas interessantes de diversificação e que tenham o potencial de proporcionar ganhos importantes na busca por independência financeira?
A resposta, segundo estudos dos mesmos pesquisadores mencionados, parece estar na familiarização. No caso de finanças, tal familiaridade se conquista por meio da educação financeira. Conforme o investidor passa a dominar o tema, fatores de risco como o inerente às aplicações em bolsa passam a ser cada vez menos tratados em seu cérebro pela Amygdala e cada vez mais pelo Hipocampo, região que lida com temas familiares e, consequentemente, percebidos como mais seguros, previsíveis e favoráveis à sobrevivência.
Aquiles Mosca é estrategista de investimentos pessoais e superintendente executivo comercial do Santander Asset Management. É autor dos livros "Investimento sob medida" e "Finanças Comportamentais".
E-mail aquiles.mosca@Santander.com.br
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23/02/2012 - Valor Econômico - SP
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