Sessão de terapia
"Doutora, eu procurei a psicanálise porque tenho tido pesadelos: sonho que
morri assassinado por mim mesmo, que estou preso com traficantes estupradores.
Não mereço isso, eu, que sempre assumi minha condição de corrupto ativo e
passivo. (Sem veadagem..., claro.) Não sou um ladrão de galinhas, mas já roubei
galinhas do vizinho e até hoje sinto o cheiro das penosas que eu agarrava.
Hahaha... Mas hoje em dia, doutora, não roubo mais por necessidade; é prazer
mesmo. Estou muito bem de vida, tenho sete fazendas reais e sete imaginárias,
mando em cidades do Nordeste, tenho tudo, mas confesso que sou viciado na
adrenalina que me arde no sangue na hora em que a mala preta voa em minha
direção, cheia de dólares, vibro quando vejo os olhos covardes do empresário me
pagando a propina, suas mãos trêmulas me passando o tutu, delicio-me quando o
juiz me dá ganho de causa, ostentando honestidade e finge não perceber minha
piscadela marota na hora da liminar comprada (está entre US$ 30 e US$ 50 mil
hoje).
Como, doutora? Se me sinto "superior" assim? Bem, é verdade... Adoro a
sensação de me sentir acima dos otários que me "compram" - eles se humilhando em
vez de mim.
Roubar me liberta. Eu explico: roubar me tira do mundo dos "obedientes" e me
faz 'excepcional' quando embolso uma bolada. Desculpe..., a senhora é mulher
fina, coisa e tal, mas, adoro sentir o espanto de uma prostituta, quando eu lhe
arrojo US$ 1.000 sobre o corpo e vejo sua gratidão acesa, fazendo-a caprichar em
carícias. É uma delícia, doutora, rolar, nu, em cima de notas de US$ 100 na
cama, de madrugada, sozinho, comendo chocolatinhos do frigobar de um hotel
vagabundo, em uma cidade onde descolei a propina de um canal de esgoto
superfaturado. Gosto da doce volúpia de ostentar seriedade em salões de caretas
que me xingam pelas costas, mas que me invejam pela liberdade cínica que
imaginam me habitar. Suas mulheres me olham excitadas, pensando nos brilhantes
que poderiam ganhar de mim, viril e sorridente - todo bom ladrão é simpático. A
senhora não tem ideia aí, sentada nesta poltrona do Freud, do orgulho que sinto,
até quando roubo verbas de remédios para criancinhas, ao dominar a vergonha e
transformá-la na bela frieza que constrói o grande homem.
Sei muito bem os gestos rituais da malandragem brasileira: sei fazer
imposturas, perfídias, tretas, sei usar falsas virtudes, ostentar dignidade em
CPIs, dou beijos de Judas, levo desaforo para casa sim, sei dar abraços de
tamanduá e chorar lágrimas de crocodilo...
Eu já declarei de testa alta na Câmara: "Não sei nem imagino como esses
milhões de dólares apareceram em minha conta na Suíça, apesar desses extratos
todos, pois não tenho nem nunca tive conta no exterior!". Esse grau de mentira é
tão íntegro que deixa de ser mentira e vira uma arte.
Doutora, no Brasil há dois tipos de ladrões de colarinho branco: há o ladrão
"extensivo" e o "intensivo".
Não tolero os ladrões intensivos, os intempestivos sem classe... Falta-lhes
elegância e "finesse". Roubam por rancor, roubam o que lhes aparece na frente,
se acham no direito de se vingar de passadas humilhações, dores de corno,
porradas na cara não revidadas, suspiros de mãe lavadeira.
Eu, não. Eu sou cordial, um cavalheiro; tenho paciência e sabedoria, comecei
pouco a pouco, como as galinhas que roubei na infância, que de grão em grão
enchiam o papo... Eu sou aquele que vai roubando ao longo da vida política e, ao
fim de décadas, já tem "Renoirs" na parede, iates, helicópteros, esposa infeliz
(não sei por que, se dou tudo a ela) e, infelizmente, filhos estroinas...
(mandei estudarem na Suíça e não adiantou).
Eu adquiri uma respeitabilidade altaneira que confunde meus inimigos, que
ficam na dúvida se me detestam ou admiram. No fundo, eu me acho mesmo especial;
não sou comum.
Perto de mim, homens como os mensaleiros amadores foram meros
cleptomaníacos... Sou profissional e didático... Considero-me um técnico, um
cientista da corrupção nacional...
Olhe para mim, doutora. Eu estou no lugar da verdade. Este país foi feito
assim, na vala entre o público e o privado. Há uma grandeza insuspeitada na
apropriação indébita, florescem ricos cogumelos na lama das 'maracutaias'.
Ouso mesmo dizer que estou até defendendo uma cultura! São séculos de hábitos
e cacoetes sagrados que formam um país. A senhora sabe o que é a beleza do
clientelismo ibérico, onde um amigo vale mais que a dura impessoalidade de uma
ética vitoriana?
A amizade é mais importante que esta bobagem de interesse nacional! O que
meus inimigos chamam de irresponsabilidade e corrupção do Congresso é a
resistência da originalidade brasileira, é a preservação generosa do imaginário
nacional!
A bosta não produz flores magníficas? O que vocês chamam de "roubalheira", eu
chamo de "progresso". Não o frio progresso anglo-saxônico, mas o doce e lento
progresso português que formou nossa tolerância, nossa ambivalência entre o
público e o privado.
Eu sempre fui muito feliz... Sempre adorei os jantares nordestinos, cheios de
moquecas e sarapatéis, sempre amei as cotoveladas cúmplices quando se liberam
verbas, os cálidos abraços de famílias de máfias rurais... A senhora me pergunta
por que eu lhe procurei?
Tudo bem; vou contar. Outro dia, um delegado que comprei me convidou para ver
uma execução. Topei, por curiosidade; podia ser uma experiência interessante na
minha trajetória existencial. Era um neguinho traficante que levaram para um
terreno baldio, até meio pé de chinelo. Ele implorava quando lhe passaram o fio
de nylon no pescoço e apertaram devagar até ele cair estrangulado, bem embaixo
de uma placa de financiamento público. Na hora, até me excitei; mas quando
cheguei em casa, com meus filhos vendo High School Musical na TV, fui tomado por
este mal-estar que vocês chamam de "sentimento de culpa"...
Por isso, doutora, preciso que a senhora me cure logo... Tem muita verba
pública aí, muita emenda no orçamento, empreiteiros me ligando sem parar...
Tenho de continuar minha missão, doutora..."
Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sessao-de-terapia-,1033981,0.htm
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