segunda-feira, 30 de abril de 2012
Empresas renomadas ainda contam pontos no currículo
Empresas renomadas ainda contam pontos no currículo
30/04/2012
Por Lucy Kellaway
Se você me perguntar sobre minha vida profissional, eu lhe direi que trabalho no "Financial Times" há um quarto de século. Se você me pressionar mais, talvez eu revele que há muito tempo trabalhei para o JP Morgan por um breve período. Também poderei acrescentar que cursei a Universidade de Oxford.
Quando conheço outras pessoas, sempre fico um pouco curiosa em saber onde elas trabalharam e, em menor grau, onde estudaram. Ser um consultor da Bain, por exemplo, significa algo diferente de ser consultor em uma outra empresa qualquer. Do mesmo modo, Yale representa algo diferente de Tuskegee. Tais detalhes não são tudo, mas são um bom começo.
Mesmo assim, de acordo com um blog da Harvard Business Review, esse tipo de citação institucional de nomes não só é fútil e superficial, como perdeu sua utilidade. Daniel Gulati, um empresário do setor de alta tecnologia, afirma que o prestígio simplesmente não tem mais tanto prestígio quanto antes.
Para começar, diz ele, muitos dos grandes nomes não parecem mais tão impressionantes. Não reverenciamos mais o Goldman Sachs, a News Corp. ou a McKinsey como antes. Em segundo lugar, as redes sociais significam que não temos mais que depender dos nomes das instituições para nossas manifestações: podemos fazer isso por conta própria. Basta apresentarmos nossas realizações diretamente no Twitter ou no Facebook.
A conclusão, diz Gulati, é que os jovens deveriam parar de brigar uns com os outros por empregos na Bain e no Morgan Stanley, na esperança de que esses nomes darão um impulso em suas carreiras. Tudo o que essas organizações fazem é rotular as pessoas. A única maneira certa de se destacar é parar de se concentrar em para quem você trabalha, e pensar no que você está fazendo. Deveríamos nos orgulhar de nossas realizações, e não dos nossos empregadores.
Isso poderia ser uma das coisas mais encorajadoras dos últimos tempos. O problema é que está completamente errado. Gulati está correto ao afirmar que são as realizações que deveriam contar. Mas o fato é que a maioria das pessoas, com exceção de poucos empreendedores, não consegue nada muito tangível. E mesmo que conseguisse, é difícil medir as realizações. Se você é Mark Zuckerberg, não precisa ficar citando um monte de nomes conhecidos em seu currículo. Mas o resto de nós definitivamente precisa.
Ter o nome associado a empresas vistosas é hoje mais importante do que nunca. Isso se deve em parte porque o mercado de trabalho está tão ruim que todo mundo precisa de toda a ajuda que puder. Além disso, conseguir bons empregos e bons diplomas está mais difícil do que antes. Na minha época, era possível entrar para uma grande universidade quase que por engano. Uma vez obtido o diploma, conquistar um emprego era muito fácil. E uma vez estabelecido, você ainda podia ter uma atuação bem medíocre sem correr o risco de ser demitido.
O que contava era a sua criação e a sorte, com o esforço e as habilidades ficando em segundo plano. Hoje, essa ordem se inverteu. Uma pessoa que se agarra a um emprego no Goldman Sachs por uma década, por exemplo, conseguiu algo que pode não ser socialmente valioso, mas oferece uma prova conclusiva de que essa pessoa é brilhante e trabalha duro - além de possivelmente arrogante e gananciosa. Se é atrás disso que você está, a palavra Goldman em um currículo deve ser levada muito a sério.
Gulati também erra ao dizer que a existência das redes sociais significa que não precisamos mais nos apegar às corporações para nos manifestarmos. Quanto mais informações houver por aí, mais precisamos de alguns nomes decentes em um currículo para se conseguir atalhos. Não consigo ver como ser grande no Twitter torna você atraente para futuros empregadores - certamente isso diz a eles que você passa mais tempo escrevendo mensagens tolas do que trabalhando.
Ele também exagera o fato de que o prestígio de alguns empregadores que já foram grandes estar em declínio. Talvez o Goldman não tenha mais o mesmo peso de antes (tente dizer isso para o exército de pessoas que seria capaz de matar para trabalhar lá). Mas alguns nomes estão ganhando força, enquanto outros estão em queda. McKinsey e News Corp. estão em queda; Google e Facebook estão em alta.
Portanto, aconselho os ambiciosos a buscar prestígio o tempo todo. É claro que isso é uma coisa superficial e injusta, mas funciona. Ter um empregador de prestígio é uma grande ajuda para encontrar um novo. A melhor coisa a respeito disso é que, mesmo que essas organizações não impressionem os outros (na maioria das vezes elas impressionam), elas podem fazer bem para você mesmo.
Pela experiência que tenho, essas instituições poderosas funcionam como cobertores confortáveis, ventres protetores e muletas. Sou uma grande fã dessas três coisas.
Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira
30/04/2012 - Valor Econômico - SP
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