terça-feira, 30 de outubro de 2012

Devo aceitar a oferta para assumir novas equipes?


Por Karin Parodi

Há quatro anos ocupo o cargo de diretor de uma empresa de médio porte que presta consultoria para o setor de infraestrutura. Sou responsável por atender o maior de nossos clientes, que acaba de anunciar que não vai mais usar nossos serviços. Isso gerou uma crise interna e os sócios decidiram demitir outros dois diretores e me fazer assumir o trabalho de ambos. Estou pensando se devo enfrentar o desafio, pois vejo vários problemas pela frente como a resistência das equipes - sou muito exigente, enquanto os outros diretores eram mais 'flexíveis' -, a dificuldade de gerenciar clientes menores e o aumento da carga de trabalho sem compensação a curto prazo. Apesar disso, não tenho outro emprego em vista e, de certa forma, sinto-me prestigiado de ter sido "poupado" do corte. O que devo fazer?

Diretor, 42 anos

Resposta:

Minha resposta curta? Não creio que seja hora de você buscar um novo desafio fora da empresa. Embora não haja, nesse caso, o certo e o errado, fica evidente a necessidade de enfrentar e assumir um desafio. E eu lhe desafio a desafiar-se, com o perdão da repetição de palavras. Desafie-se aí mesmo onde você está e prove, com resultados, que merece ser compensado por isso. A consequência será não apenas o reconhecimento dos sócios, mas o rico aprendizado embutido e o aperfeiçoamento profissional que pode abrir horizontes no futuro.

De modo realista, a mudança em curso em sua empresa não está sob seu controle e isso é algo com o que você tem de se conformar. Em paralelo, ela precisa ser encarada com naturalidade, pois mudar faz parte do dia a dia das organizações e da vida humana. Isso sempre gera dúvidas, insegurança, desconforto, interrupções e rompimentos.

Não é bobagem quando se fala que toda mudança demanda muita energia dos envolvidos. Você poderia ter sido uma história de "rompimento", se demitido, mas foi o eleito para permanecer. Isso significa não apenas que os sócios estão confiando em sua capacidade de assumir os desafios, mas que lhe estão oferecendo a oportunidade de demonstrar um conjunto de competências ampliado. Nem sempre, afinal, aparecem em nossas vidas desafios dessa envergadura, em que podemos nos arriscar para alçar voos maiores.

Porém, esses sócios também o colocaram em um processo de transformação corporativa que geralmente se caracteriza, por alguns momentos, pelo surgimento de sentimentos como confusão, medo do desconhecido, sensação de perda de rumo e, talvez o maior dos perigos, reações inesperadas. Por essa razão, é preciso enxergar a situação à luz da razão. Desafios como esse podem fazer uma diferença abissal em seu futuro.

O que o impediria, então, de aceitar a oferta? Vale a pena repassar suas preocupações uma por uma. Você menciona, inicialmente, a carga de trabalho, que tenderia a ficar excessiva. Diante disso, eu argumento que, no segmento de consultoria, não é surpresa para ninguém que as horas do expediente cresçam dependendo do projeto em andamento - e isso ocorre, especialmente, quando o empregador precisa ajustar a estrutura organizacional e buscar novos clientes para sobreviver e perpetuar-se.

Em segundo lugar, você observou que não há promessa de uma maior compensação de renda. Como diretor, você não pode se prender a ganhos de curto prazo, pois sabe, melhor do que qualquer outra pessoa, que uma carreira profissional consiste em uma maratona e não corrida de 100 ou 200 metros rasos do jamaicano Usain Bolt.

O fato sobre o qual você mais se deteve foi talvez o da potencial resistência das equipes incorporadas. Sou a primeira a concordar que sua tarefa não será fácil nesse aspecto, mas é perfeitamente possível mostrar aos "órfãos" dos gestores flexíveis anteriores, com vícios adquiridos em sua concepção, as vantagens de se ter um chefe exigente - destacadamente, o fato de que cobrar padrões elevados de desempenho das pessoas as leva a evoluir de modo constante e a atingir um nível de excelência cada vez mais alto, o que tende a impactar sua carreira de modo muito positivo.

Mostra-se fundamental, contudo, não esquecer o conselho que lhe darei agora, fruto de muitos anos de experiência: lide com as resistências sempre individualmente, entendendo o que pode motivar cada um a abraçar uma causa, reforçando objetivos futuros, valorizando os mínimos esforços de mudar de um subordinado.

Além disso, você também poderia aproveitar as novas circunstâncias para mudar um pouco seu estilo de liderança. Que tal adicionar uma pitada de flexibilidade ao seu saudável nível de exigência e chegar ao melhor dos mundos em gestão de times? Seria o momento ideal para fazer uma reflexão e reforçar uma das competências mais importantes que é o autoconhecimento, maximizando as fortalezas e desenvolvendo-se mais nos pontos tidos como vulnerabilidades.

Para terminar, lembro uma lição que todos aprendem, mais cedo ou mais tarde: quando contratam alguém, as empresas se concentram no que o profissional fez de diferente. Então, faça a diferença que lhe pedem para fazer.

Valor Econômico - SP

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