Romney ameaça a China. Mas medidas protecionistas nos EUA seriam
revidadas. Uma guerra comercial prejudicaria o mundo inteiro, e não haveria hora
pior
Em 1880, Eça de Queirós escreveu um conto que destoa completamente
do estilo realista que marcou a sua obra. A história envolve o diabo, um homem
ambicioso e um poderoso mandarim, um alto funcionário público da antiga
China.
Um dia, Teodoro, um funcionário público de baixo escalão,
indivíduo avarento e propenso ao alpinismo social, descobre num sebo um livro
com uma lenda. O livro dizia que o simples toque de um sinete, em uma
determinada hora, mataria o dito mandarim e faria do assassino o herdeiro de
seus milhões.
Depois da descoberta, Teodoro tem uma visão. Nela, o
demônio o visita. Ele o tenta com o toque da campainha. O protagonista não
resiste. O tilintar do sinete põe em marcha uma série de acontecimentos que
mudarão para sempre a vida de Teodoro. Teodoro fica rico, mas passa a ter uma
vida de traição e culpa.
A coisa não acaba bem. Teodoro implora ao diabo
que leve a fortuna e faça tudo voltar a ser como era antes.
O
candidato republicano à presidência dos EUA, Mitt Romney, não é um "funcionário
público" -ainda- e tampouco tem salário de classe média, como o
personagem de Eça. Contudo, ao que indicam suas declarações mais recentes, está
indócil.
Ele quer tocar a campainha: deseja declarar formalmente que a
China manipula a sua moeda, iniciando uma cascata de eventos que pode ser
extremamente prejudicial para a recuperação global.
Romney disse, nos
debates de campanha, que este será o seu primeiro ato como presidente, se
eleito. O momento não poderia ser pior.
A China passa, hoje, por
um processo de abertura política e de transformação econômica extremamente
importante, tanto internamente quanto para os rumos da economia global. Em
reconhecimento a isso, o Nobel de Literatura, tradicionalmente com forte viés
geopolítico, foi concedido a um escritor chinês, membro do establishment
cultural local.
A transição de poder ineditamente transparente da
liderança do Partido Comunista em novembro e a mudança de eixo de crescimento
-do investimento e do setor externo para o consumo- são fundamentais para que a
China enalteça o seu status geopolítico e consolide a sua posição de
potência econômica, reduzindo os riscos de desequilíbrios macroeconômicos
provenientes da manutenção de taxas de crescimento excessivamente altas.
É o mandarim global, o conselheiro de alto escalão, se apresentando ao
mundo. Mas Mitt Romney quer agredir o mandarim.
Suas ameaças não são
mera retórica de campanha, uma forma simples e barata de bajular o eleitorado
americano, preocupado com os seus empregos, com a influência crescente do país
asiático e com a perda de status dos EUA.
Ele parece realmente acreditar
no que diz. Suas ameaças com relação à China, aliás, são mais críveis do
que os temores sobre a possibilidade de um governo republicano (ou democrata sem
suporte no legislativo) não renovar os benefícios que têm sustentado a renda da
classe média americana. Afinal, uma vez eleito, nenhum governo quer
correr o risco de antagonizar com a classe média. Já antagonizar com a
China... bem, isso é outra história.
A provocação de Romney, caso
se concretizasse, traria inúmeros riscos para a economia mundial.
Caso a
China fosse formalmente acusada de manipular a sua moeda, os lobbies de
diversos setores industriais nos EUA ganhariam força para pedir ao Congresso
medidas protecionistas. A China decerto retaliaria, o que teria
consequências nefastas sobre a atividade e os empregos nos EUA, uma vez que o
país asiático é um dos principais destinos das exportações americanas.
Deflagrar-se-ia uma verdadeira guerra comercial entre as duas maiores
potências econômicas globais, com reflexos funestos sobre o crescimento e a
inflação.
Neste contexto, o Brasil enfrentaria um quadro muito
diferente do "cenário externo de baixo crescimento prolongado e
desinflacionário" que sustenta a estratégia do governo brasileiro em relação aos
juros, ao câmbio e ao controle da inflação.
Resta-nos,
pois, refletir sobre as palavras finais de Teodoro, ao agonizar em seu leito de
morte: "E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: só
bem sabe o pão que dia a dia ganham as nossas mãos, nunca mates o mandarim!".
Infelizmente, o plutocrata não parece ser um leitor de Eça de Queirós.
MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE, 40, economista, é professora da PUC-RJ e diretora do
Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças
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