sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Castigo do Velho Testamento

Antes de se transformar num Deus de Misericórdia no Evangelho, Jeová andou castigando severamente os humanos, em episódios bem conhecidos do Velho Testamento. As sete pragas do Egito são apenas uma dessas narrativas em que o povo inocente paga tanto quanto os pecadores quando a ira divina baixa sobre a Terra. Parece que a doutrina do Velho Testamento retornou para fazer os justos pagarem pelos pecadores, punindo os excessos financeiros de alguns banqueiros através do sofrimento de milhões de consumidores. Nos Estados Unidos, uma seca extrema derruba a safra de grãos e aperta o orçamento alimentar dos mais pobres, mundo afora. O anêmico PIB americano definha diante da conjuntura de poucos estímulos ao gasto em novos investimentos pelas empresas, enquanto o consumo das famílias — já bastante comprometido — recua em função do custo crescente dos alimentos. Tudo começou em 2008, noutro episódio de escassez alimentar, que então se alegava ter origem no programa de energia verde do Brasil, cujas áreas de grãos estariam sendo desviadas para lavouras gigantescas de cana, na produção do etanol. Pura maledicência de quem não queria ver o programa de energia limpa decolar. Agora é diferente. É uma seca monstruosa — a maior em pelo menos 50 anos — nas regiões de plantio de verão nos EUA que ceifou parte da futura colheita, principalmente no meio-oeste. O USDA, Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, acaba de corrigir para baixo suas estimativas do mês de julho. Divulgou novos números para as colheitas de milho e soja. No milho, o USDA cortou nada menos que 45 milhões toneladas de oferta e, em relação à soja, 10 milhões. Ao lado da queda americana, o USDA também calcula a contribuição positiva de regiões como Brasil e Argentina, cujo avanço, somado, em grande parte compensaria o resultado negativo americano. Se não estamos diante de uma catástrofe de preços é porque se esperam recordes de produção por aqui em 2012/13. Por enquanto, os pre- ços sobem mais por conta da seca. Mas os especuladores já estavam puxando as cotações antes disso, por conta da mesma especulação que ocorreu nos mercados de commodities em 2008. Os estoques de passagem estão muito justos, ensejando movimento especulativo altista que pode ter maior elevação decorrente do eventual agravamento do déficit hídrico. Falta chuva, mas sobra liquidez no sistema bancário americano para seguir comprando contratos de entrega futura nas bolsas, na expectativa de obterem um ganho fácil. Os preços, portanto, refletem mais os remédios cavalares adotados pelos bancos centrais para equilibrar as finanças de uma minoria, do que as condições de efetiva escassez, por piores que sejam. É a classe média americana e a classe C mundial tendo de enfrentar preços estufados em toda a cadeia de grãos e carnes para endossar a forma equivocada de relaxamento monetário praticado pelos governos em benefício de uns poucos. A conclusão provisória é que o nosso Deus de misericórdia não mudou de humor. A grande seca americana apenas agravou os efeitos deletérios de políticas monetá- rias que nada têm de divinas.

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